Trilogia Sertaneja
Luiz Gonzaga é por justiça tido como o Rei do Baião. Isso significa que boa parte da cultura sertaneja nordestina se apóia em, e é a base de sua própria obra. Que é brilhante, genial e crítica, como a Cultura Popular tem de ser.
Crítica é essa trilogia que aqui se destaca do conjunto da criação de Gonzagão. Ainda que fosse casual, que não houvesse propositalmente uma trilogia, e provavelmente não haja intenção imediata do autor – quem saberia?, além de Asa Branca, e da Volta da Asa Branca, temos o Assum Preto.
Vamos então buscar o nexo desta trilogia usando um método que os artista populares de um tempo onde havia cultura popular desde cedo aprendiam; a dialética.
Sem sofisticação alguma, mas com a decência que cabe à arte, a tese, a antítese e a síntese se colocam sob a forma destas três músicas. Que aqui se tornam meros poemas, para que possamos vislumbrar o que está sendo colocado.
“Quando olhei a terra ardendo”, diz o sertanejo, ele vai-se embora do sertão. Asa Branca é a história do sertanejo que larga sua terrinha, família e vai ser migrante, errante, sem destino. Não sabe mesmo o que irá fazer, como irá fazer, nem onde estará. Sabe apenas que seu sertão esturricou, que não pode passar fome e não se deixará morrer.
Mas quando os verdes dos olhos de Rosinha cair, e a terra molhar, e a plantação vingar, ele estará lá, em seu sertão sofredor.
“Sertão das muié fera, dos home trabaiador”
Tivemos a tese, portanto. É a necessidade de sair da indústria da seca, buscar sustento na capital, ou no sul do Brasil. Foi essa mesma a vivência de Luiz Gonzaga, foi isso que ele viu acontecer no sertão, e é sobre isso que a arte dele iria, ou poderia, falar. Muitas léguas distante, espera o sertanejo cair a chuva. Espera a notícia da chuva com um anseio familiar e cruel.
Familiar porque faz parte dele, é a constituição cultural, a vivência, a própria vida e o próprio ser do sertanejo; e cruel por todas as relações de poder e mercantis que existem permeando esta indústria da seca.
E então chegam aos seus ouvidos os barulhos de três dias de relâmpagos…
O sertanejo ruma pro norte, pensando num mundo idílico.
Uma verdadeira Utopia.
Eis então a antítese. Ele sonha com as cachoeiras, com o mato do quintal, das serras, dos campos de seu sertão, e o seu povo alegre festejando a abundância.
A Asa Branca volta para o seu sertão, carregando em seu peito a esperança do mundo melhor. Uma antítese que terá a conclusão mais perversa possível.
É com a mata em flor, e preso na própria abundância, que o sertanejo passa a ser um Assum Preto, cegado para cantar melhor em sua sina.
Sua cor inverteu, há a prisão da cegueira, as amarras do coronel que lhe tomou a terra na indústria da seca. Como o Assum Preto, ele agora não é mais livre. Terá de agradar sempre aquele que lhe furou os olhos. Tem que trabalhar para manter sua fome e não morrer.
O sertão acabou sendo o pesadelo daquele sonho de esperança.
A necessidade virou esperança que virou desilusão. As amarras do coronel são tão fortes e tão cruéis que este sertanejo reflete se se fossem apenas grilhões, desde que ele pudesse ver o céu, seria melhor seu destino. Ele vive “solto” e não pode sair voando. É o pobre do João Grilo, que tem que se virar do mesmo jeito, com esperteza na maioria das vezes. Mil vezes a cadeia que servir de capacho pra coronel. “Banditismo por necessidade, banditismo por pura maldade”, diria tempos depois o Chico Science.
E, trocando em miúdos, é essa a História do Povo Brasileiro – o que não significa que seja a História do Brasil, que é ainda mais perversa que isso.
Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô
Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarveiz por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá mió
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá
Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus…